Armando Gens – UERJ e UFRJ
No fim do Império e no princípio da República, a possibilidade de transpor a cerca que delimitava a área dos bem-nascidos oferece aos excluídos algumas vias de acesso. O desejo de ascender socialmente deixa de ser uma utopia e passa a ser uma realidade, pelo menos no plano das idéias, graças à circulação de ideais democráticos e liberais que oxigenam a sufocante configuração da sociedade brasileira. Contudo, cruzar os limites de um território estratificado exige artimanhas e estratégias já desvendadas na produção literária de Machado de Assis. Assim, casamentos arranjados, padrinhos de batismo escolhidos a dedo, polpudas heranças e atividades literárias, jornalísticas e comerciais, entre outros meios, apresentam-se como bem cotadas portas de acesso à progressão social.
Tomando como uma das vias de acesso a carreira literária, nela podem ingressar os excluídos socialmente quer por fatores étnicos quer por fatores econômicos. Tal ingresso dá-se porque o campo literário, embora garantindo um lugar na sociedade, não mantém a mesma estrutura do campo social. Enquanto o campo literário, para seu funcionamento, requisita uma dinâmica entre o lugar e o não-lugar, instaurando uma parotipia[1], o campo social caracteriza-se pela demarcação de lugares em territórios representados pelas instituições.
A condição paratópica do escritor tende a identificá-lo com todos aqueles que residem na bainha do tecido social: boêmios, dândis, judeus, loucos, mestiços, negros, palhaços e parasitas. Entende-se porque, entre o Império e a República, a carreira literária transforma-se como um lugar acessível para os excluídos. Primeiro, porque se trata de um espaço sem localização precisa, flutuando à margem da sociedade. Em segundo lugar, porque o campo literário favorece a acumulação, permitindo ao homem de letras atuar em outras frentes de trabalho reconhecidas pela sociedade. E, em terceiro lugar, a imagem de artista exigida pelo período aparece recortada em moldes românticos, exigindo dele emblemas de individualização, traços de marginalidade e desprezo pela ordem burguesa.
Como se observa, a duplicidade dos que escolhem ingressar no campo literário pode resvalar para uma condição ambígua e paradoxal. O homem de letras pode desfrutar de grande visibilidade, ser um autor de sucesso, sem, contudo, ter um lugar marcado na sociedade. Via de regra exerce atividades burocráticas sem grandes expectativas de promoção e sem alarde, pois o objetivo é garantir um mínimo para o próprio sustento e direcionar todos os esforços para o universo tipográfico, forjando um lugar, sem correspondência direta com os lugares institucionais. Tal lugar é garantido pela exposição a que se submete o homem de letras, fazendo circular seu retrato oficial em páginas de importantes jornais e revistas, tendo suas obras presentes em catálogos de editoras de prestígio e freqüentando salões, cafés ou botequins.
O exame do percurso de literatos mestiços ou negros atesta que a condição social deles não difere muito da dinâmica da carreira literária, onde as noções de trabalho, de salário e de localização apresentam-se sob o signo da inconstância, devido aos movimentos ascendente e descendente produzidos pelo contrato com as casas editoras, pela comercialização e consumo das obras e pela imprevisível química do sucesso. Segundo se observa, em campo literário, reproduz-se uma dinâmica perversa que reenvia negros e mestiços a um não-lugar na sociedade. O ingresso na carreira de homens de letras não é garantia de uma localização precisa, já que se trata de um espaço reservado à excentricidade e ao exotismo. Artistas, de modo geral, são vistos com significativa reserva por representarem a negação da ordem, a desobediência às leis e aos costumes. Há, então, um acordo tácito com a sociedade, que permite visibilidade aos excluídos, quando classificados em categorias que fogem aos parâmetros da ótica da organização social.
Assim, o ingresso de negros ou mestiços na carreira literária mascara uma situação de fato e ilustra, ilusoriamente, aos incautos os frutos das idéias liberais e abolicionistas que se apresentavam mais como discurso do que como prática. Não causa surpresa o fato de Machado de Assis estar à frente da fundação da Academia Brasileira de Letras. Na condição de mestiço, percebe bem a importância de um lugar institucional para o escritor, o que, em parte, viria a esbater a imagem de rebeldia e subversão cultuada e fixada pelos homens de letras, na fase de transição entre o Império e a República. Por isso, o fardão e a cadeira investem, poderosamente, na criação de uma outra imagem marcada pela uniformidade da classe e pelo lugar reservado. A Academia acaba sendo uma resposta metafórica à inconstância vivida pelo escritor em campo literário ao oferecer imobilidade e imortalidade.
Entre os vários exemplos de trajetória literária e social de negros e mestiços que trazem as marcas da exclusão tatuada na própria pele e vivem em regime de impermanência, situa-se o de Bernardino Lopes. Segundo seu biógrafo, Renato de Lacerda [2], o poeta fluminense, nasce em Imbiara, município de Rio Bonito, em 1859. Mestiço, filho de uma costureira e pai escrivão do registro civil, protege-lhe um tio paterno que exerce o posto de advogado provisionado. Inicia-se no universo do trabalho como balconista de “venda” e como caixeiro de padaria, tornando-se, posteriormente, funcionário dos Correios.
Chega à cidade do Rio de Janeiro, por volta de 1876, e, de modo meteórico, transforma-se em um poeta de grande popularidade, devido ao sucesso de seu primeiro livro, intitulado Cromos, publicado em 1881, pela Papelaria do Cruzeiro. Participa, na qualidade de homem de letras, de importantes periódicos da época como: O Cruzeiro, Gazeta de Notícias, Gazeta da Tarde e O País. Atua, de forma mais intensa, na FolhaPopular e no jornal Novidades, ao lado de Cruz e Sousa, Oscar Rosa, Mário Pederneiras, entre outros. Após tamanha visibilidade em espaço literário, passa algum tempo internato em manicômio e morre, em 1916, tuberculoso e solitário, no Engenho de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro.
A vida de Bernardino da Costa Lopes e sua circulação pela cidade do Rio de Janeiro caracterizam-se por uma série de cisões que testificam sua condição paratópica. Encontra-se, de modo muito nítido, em seu trajeto, uma tentativa de se afirmar pela diferença, quer pela escolha de um visual arrojado, quer pelas atitudes afetadas que adotou na esfera do espaço público, tornando-se uma figura inconveniente aos olhos de seus pares. O retrato de B. Lopes, concebido por Gonzaga Duque, no suplemento literário “Autores e Livros”, de A Manhã, denuncia que a indumentária usada pelo poeta peca pelo exagero e entra como um forte elemento de contestação do bom-gosto, da elegância e da estesia que estão presentes no visual do dândi. Comprove-se a figura do poeta com a moldura fora de esquadro:
Camisa azul, enorme laçaria de seda creme presa sob as pontas largas dum colarinho branco, calças de xadrez dançando nas pernas, polainas de brim, um pára-sol de foulard amarelo, um chapéu de palha branco, e na lapela do jaquetão um bouquet, verdadeiramente um bouquet. Nada menos de três cravos vermelhos e duas rosas tela de ouro.[3]
Diante dos detalhes oferecidos pelo crítico de arte, a roupa de B. Lopes assemelha-se a uma fantasia, não só pelas dimensões avantajadas do buquê e da gravata como também pela variedade de cores. A figura do poeta desperta censura, espanto e repulsa entre a geração de 80. Contudo, a reação de seus pares, diante dos excessos praticados na maneira de trajar-se e de comportar-se, não o abala, já que sentia prazer em causar escândalo e forçar a atenção alheia, por não saber lidar bem com a invisibilidade do mestiço nos quadros de uma sociedade entalada entre o Império e a República.
Cabe indagar o que levaria uma figura pública, poeta conceituado, a se portar de tal modo. É muito pouco pensar que B. Lopes, só para criar embaraços, usava trajes chamativos. Em realidade, suas roupas funcionavam como um sinal distintivo de uma sociedade em vias de transformação, mas cujos costumes e regras insistiam em permanecer antigos, por isso a indumentária de B. Lopes constitui-se em uma atitude carnavalizada, cujas causas residem na questão da identidade do poeta e do lugar que ele ocupa no corpo social. Réplica bufa e tropical de George Brummell, não lhe faltam a insolência, a rejeição ao mundo que o despreza, a repugnância ao convencional e a necessidade de se distinguir através da diferença e do isolamento, como convém a um dândi. No rol de tais características, acrescente-se uma dose trágica na representação do poeta no espaço social. No papel de bufão[4], questiona o comportamento de um grupo de homens de letras que se regula pela discrição, pelo bom-tom, pelo bom senso, pelo bom-gosto e pela moderação, reenviando à sociedade sua própria imagem, sua própria infiguralidade, sua própria interrogação sobre sua identidade[5].
O comportamento nada convencional de Bernardino da Costa Lopes é uma evidência de que ele, na qualidade de poeta, abre séria questão sobre o lugar do mestiço na sociedade brasileira. Mostrar-se de forma extrema e se fazer visível são ações que colocam diante dos olhos da sociedade o que ela finge ignorar. Valendo-se de que ao poeta permite-se um perfil exótico, transforma suas aparições, no espaço público, em performances, de modo a trazer à tona a bipartição do mestiço intelectualizado, causada pelo descompasso entre a sociedade civil, arraigada aos valores aristocráticos, e o campo gráfico disseminador dos ideais democráticos. Se no plano da esfera tipográfica o mestiço conquista legibilidade, através do exercício de atividades literárias e jornalísticas, no plano social, continua em um não-lugar. Bernardino da Costa Lopes é um modesto funcionário que, após desentendimento com Emílio de Menezes, deixa de freqüentar a Colombo e passa a consumir bebida barata nos “freges-mosca” da cidade. Já B. Lopes é o poeta de sucesso que, aos 22 anos, lança um festejado livro de poemas, intitulado Cromos.
Cumpre assinalar que os desvios são inevitáveis na trajetória do poeta. Reduz de forma quase radical, o nome, transformando-o em uma marca de sucesso e em produto gráfico. É como B. Lopes, poeta e jornalista, que circula pelos salões e pelos seletos grupos de leitores. O prestígio de que desfruta advém das letras impressas e lhe garante uma parcial legibilidade, transformando-o, literalmente em um homem-letra, um B, como era chamado pelos amigos.
Renato de Lacerda, ao reconstruir a vida de B. Lopes, toma, por base, vários poemas do autor para relacionar vida e arte, corroborando a importância da literatura na trajetória existencial do mestiço. Outro biógrafo de B. Lopes, Mello Nóbrega, em Evocações de B. Lopes, é bastante claro ao afirmar que o poeta fixa-se em ambiente literário para construir uma personalidade, uma vida, um mundo à parte, bem distante da realidade de um funcionário dos Correios.
Unindo as visões dos biógrafos, elas auxiliam a compreender a mudança que se opera no eixo das produções literárias do autor de Helenos. Se, no livro de estréia, trilha a tradição ruralista e sertanista da poesia brasileira representada por Fagundes Varela e Bruno Seabra, entre outros, a partir de seu segundo livro, Brasões(1895), o bucolismo inicial será substituído por um universo palaciano, como bem demonstra o poema-pórtico plantado nas primeiras páginas da obra. Tal mudança não parece fortuita, pois, na segunda edição de Cromos(1896), o poeta, em uma nota de advertência, comunica aos leitores que adicionou novos poemas e inseriu o poema, intitulado “A Minha Musa”. Nele, a musa campesina comparece à cena literária de forma “tímida” e “confusa” [6]. Enfraquecida, anuncia, de forma indireta e antecipatória, o caminho aristocrático que o poeta seguiria dali em diante. Nas obras subseqüentes, o eixo temático e a linguagem vão coincidir com os gestos e com as atitudes assumidas pelo poeta em completa dissonância com as idéias vigentes. O entrosamento do poeta com a obra ganha proporções inesperadas, de modo que o homem acaba sendo eclipsado pelo artista, prevalecendo a fantasia e o sonho de um lugar jamais atingido.
Nota-se que a trajetória de B. Lopes dá-se em um circuito paradoxal, à medida que, descrevendo, heraldicamente, uma sociedade burguesa que tem como parâmetro a alta nobreza européia, opta, ironicamente, por ser o cantor de forças conservadoras e opressoras. Seus poemas dialogam com um contexto social em que o rito do beija-mão, o alvoroço dos bailes, a hora do chá, o desfile de carruagens blasonadas estão no prazo de validade. Como vã tentativa de abolir a dicotomia entre o real e o imaginário, o poeta refugia-se em instância simbólica com longes acentos de contos de fada.
O desvio do rural para o urbano aristocratizado leva o poeta a estabelecer no ato da enunciação correlações entre fatores étnicos e escolhas estéticas, denunciando sua sede de distinção. Leva-o, ainda, a experimentar na própria pele os efeitos da exclusão social, do alcoolismo e da condição trágica do artista condenado a perambular pelos botequins da cidade em sua condição irreversível de poeta-albatroz[7], porque todo investimento dispensado na dura tarefa de integração vai reconduzi-lo, inevitavelmente, à contradição[8]. Mesmo em campo literário, o estilo de B. Lopes, por ser demasiadamente ornamental devido à adjetivação impetuosa e às combinações inesperadas que infringem a sobriedade da linguagem literária parnaso-simbolista cultuada no Brasil, causa espécie a certos retores disfarçados em críticos literários.
Tamanha é a sede de distinguir-se que não perde oportunidade em operar interferências. Assim, em lugar de seu nome impresso na capa e na folha de rosto de alguns de seus livros, posteriores a Brasões, encontra-se sua assinatura, como se as obras já chegassem autografadas às mãos dos leitores. Tal arranjo gráfico contraria as rígidas normas da editoração do século XIX, conferindo uma informalidade ainda não permitida ao objeto livro. A assinatura, além de validar o produto, propõe o embate entre o texto impresso em escala industrial e o manuscrito.
Com a assinatura desenhada diligentemente sobre a capa ou folha de rosto de seus livros, B. Lopes parece compreender a importância do grafismo manual com traço de distinção e poder em uma sociedade imbuída dos valores da cultura humanística, uma vez que experimenta uma outra modalidade de escrita, a oficial, na qualidade de funcionário dos Correios. Escrita caligráfica e burocrática que serve aos interesses institucionais e mantém fortes laços com o poder, o servilismo e a segregação inerentes ao mundo do trabalho. Ao fazer constar das edições de Val dos Lírios e Sinhá Flor sua assinatura, o poeta deseja firmar o lugar do mestiço no mundo da escrita enquanto prática social e emblema de distinção. Por isso, o gesto do poeta extrapola o domínio da escrita técnica para transformar-se em ato político.
Constata-se que todos os recursos empregados pelo poeta para alcançar visibilidade perante uma sociedade que, por injunções políticas, aprendeu a desconsiderar negros e mestiços, não foram suficientes para lhe garantir uma imagem duradoura. Andrade Muricy, responsável pela edição das Obras Completas de B.Lopes, patrocinada pela Casa Zélio Valverde, em 1945, disse ter levado cerca de vinte anos para reunir todos os livros do poeta. As homenagens prestadas a B.Lopes, por seus prosélitos, como Jonas da Silva, Galdino de Castro, Artur Lobo, Armando Lopes, Luís Nóbrega, Alfredo Pimentel e Cruz e Sousa, em suas “Campesinas”, estão soterradas em pilhas de antigos jornais, livros e revistas, em armazéns de bibliotecas ou em privados acervos de bibliófilos. Imagem esfumada e fadada a desaparecimentos e aparecimentos impele Carlos Drummmond de Andrade, em 1959, em uma crônica comemorativa ao centenário de nascimento do autor, publicada no Primeiro Caderno do Correio da Manhã,a reclamar por uma nova edição das obras do autor deBrasões, pois, àquela altura, a edição organizada por Andrade Muricy não se encontrava disponível no mercado e o incita a indagar: “Onde encontrar B. Lopes, como reconstituir B. Lopes?” [9], pergunta bastante oportuna que se transforma em resposta sobre a condição paratópica de poetas mestiços nos centros urbanos e no campo literário, condenados a errar pelos botecos, sofrer rejeições, exilar-se nos subúrbios da cidade e enfrentar a morte na solidão, como um circuito a ser percorrido para acertar a escrita.
Referências Bibliográficas:
BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
COBLENCE, Françoise. Le dandysme, obligation d’incertitude. Paris: PUF, 1988.
CORREIO DA MANHÃ, 20/01/1959. Andrade, Carlos Drummond de. O esquecido B. Lopes. p. 6.
LACERDA, Renato de. Um poeta singular. [ s l.]: [ s.e.], 1949.
LOPES, B. Cromos Rio de Janeiro:Fauchon, Tip. Leuzinger,1896.
MAINGUENEAU, Dominique. O contexto da obra literária.Tradução Maria Appenzeller; revisão da tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1995. (Coleção leitura e crítica)
NÓBREGA, Humberto Melo. Evocações de B. Lopes. Rio de Janeiro: São José, 1959.
STAROBINSKI, Jean. Portrait de l’artiste em saltimbanque. Paris: Flamarion, 1983.
SUPLEMENTO LITERÁRIO DE A MANHÃ, ano II, n. 13, v. III, 1/1/1942.
[1] A pertinência ao campo literário não é, portanto, a ausência de qualquer lugar, mas antes uma negociação difícil entre o lugar e o não-lugar, uma localização parasitária, que vive da própria impossibilidade de se estabilizar. Essa localidade paradoxal, vamos chamá-la parotipia.In: MAINGUENEAU, D. (1995.) p. 28
[2] LACERDA, R. (1949)
[3] DUQUE, G. (1942) p.180
[4] STAROBINSKI, J.(1983) p.81
[5] CLOBENCE, F. (1988).” renvoie à la societé sa propre image, sa propre infigurabilité, sa propre interrogation sur son identité”. p.37
[6] LOPES, B. (1896) p. 1
[7] BAUDELAIRE, C.(1985) Le Poëte est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l’acher;
Exilé sur le sol au milieu des huées
Ses ailes des géant l’êmpechent de marcher (p.111)
[8] STAROBINSKI,J.(1983); Baudelaire, poète des “deux postulations simultanées”, a conféré à l’artiste, sous la figure du bouffon et du saltimbanque, la vocation contradictoire de l’envol et de la chute, de l’altitude et de l’abîme, de la Beauté et du Guignon. (p.81)
[9] CORREIO DA MANHÃ(20/1/1959) p.6